17 março 2011

Sentes-te realmente estudante de Medicina quando...

- Desde o dia em que soubeste que entraste na Faculdade, toda a gente te pede conselhos sobre "esta  dor que aqui tenho";

- Já te perguntaram várias vezes se viste um morto; a seguir não entendem como isso não te fez desistir;

- Tens milhentos livros para comprar mas são caros - optas por fotocopiar um e pagas 80€;

- Frequentemente respondes aos convites dos teus amigos com um "Desculpa, não posso, tenho que estudar / estou de banco";

- Aparentemente nenhum dos teus amigos fora da Faculdade percebe como é possível alguém estudar mais de 3 dias para qualquer exame;

- Ganhaste, entre os amigos dos teus pais, o cognome de "aquele(a) que está em Medicina", que vem sempre a seguir ao teu nome;

- Mala de fim-de-semana durante o ano lectivo significa 1/3 de roupa e 2/3 de livros - os fins-de-semana são os dias por que esperas para tentar estudar o que não conseguiste durante a semana;

- Reconheces mais facilmente os apelidos Esperança Pina, Guyton, Testut, Robbins, Netter, Harrison, do que os de muitos dos teus colegas;

- O ponto alto do teu ano é o ENEM, a altura em que todos estão (durante 3 dias) um passo mais perto da cirrose hepática e isso é excelente;

- Tens cefaleias e mialgias enquanto toda a gente tem dores de cabeça e musculares; deitas-te em decúbito lateral esquerdo enquanto toda a gente se deita prá esquerda;

- Ninguém percebe como é que podes palpar os pulsos de uma pessoa se estás a avaliar, por exemplo, os pés;

- Sentes que a maioria dos teus amigos da escola têm mais tempo para viver do que tu;

- Já te passou pela cabeça que talvez tivesse sido melhor escolher outro curso;

- Sentes-te menos do que o colega do lado se o teu estetoscópio não é Littman e não tens uma Moleskine para tirar notas e colar as vinhetas dos doentes;

- Não te apercebes que só falas por siglas porque toda a gente se entende assim "Doente recorre ao SU do HSFX com AP de AVC, HTA e DM; ECG com supra de ST entra em FA com RVR...";

- Quando chegares ao fim do curso tens um Mestrado em Medicina, mas um Doutoramento em segurar as paredes do hospital;

- O teu percurso profissional vai ser ditado apenas por um exame de cruzinhas onde se safa melhor quem decorou a percentagem de doentes morrem de AVC no Botswana do que quem faz um diagnóstico porque aprendeu a olhar e ouvir o doente;

- Perguntas-te frequentemente com que idade acabarás por conseguir constituir família;

- A seguir perguntas-te se conseguirás fugir à grande percentagem de Médicos divorciados e se irás ter tempo para conhecer os teus filhos;

- Já percebeste que nunca será possível ir beber café com os teus colegas sem que isso vos leve a temas médicos;

- Desde o primeiro dia que sentes que quanto mais estudas, mais devias estudar.

... Mas quando vais chegas ao hospital vais dar alta a uma mulher e ao seu filho recém-nascido e ela agradece-te porque o pouco que fizeste a fez sentir-se melhor -  e isso, por alguma razão, vale tudo!

23 fevereiro 2011

Escolhas

Daqui a uns meses vou poder (ter que...) escolher uma especialidade para seguir.

Mais do que optar por uma especialidade médica ou cirúrgica; mais do que escolher entre tratar homens ou mulheres, miúdos ou graúdos, a coisa vai ter que pender numa balança bem mais profunda que infelizmente pesa dois mundos incompatíveis...

Daqui a 50 anos vou olhar para trás.
Hoje, prefiro sonhar que esse momento venha a ter que que legenda?

«Fui feliz. Fui uma grande médica. Salvei imensa gente e fui reconhecida pela dedicação aos meus doentes. Estive horas a fio no bloco operatório e fins-de-semana inteiros no hospital porque alguém precisou de mim. E tive uma família.»

«Fui feliz. Fui filha e irmã. Fui Mãe e mulher de alguém. Acompanhei a minha família nos bons e maus momentos. Estive com os meus filhos nas festas da escola e quando partiram a cabeça; quando morreu o cão e quando ganharam o jogo de futebol. Viajei pelo mundo e vivi imensas experiências de que não me vou esquecer. E fui médica.»

Qualquer uma é válida; nenhuma é errada. E a escolha é minha.

06 fevereiro 2011

Notícias do Karting - Plano Vertical esteve novamente em 1.º

Para a posteridade, o ano em que a Plano Vertical, Lda. se manteve durante a primeira fase no topo do Troféu de Karting da Ordem dos Engenheiros.

Faltam 300 médicos nos centros de saúde - JN

Faltam cerca de 300 médicos nos centros de saúde porque um especialista em Medicina Geral e Familiar ganha apenas 1100 euros. A solução está em dar "condições dignas" a esses clínicos e não contratar médicos estrangeiros. Quem o diz é o novo bastonário.

José Manuel Silva, que ontem, sábado, participou na tomada de posse dos órgãos sociais da Associação Nacional de Estudantes de Medicina em Coimbra, rejeita que haja falta destes profissionais. Portugal até tem mais médicos do que a média europeia, garante. O problema está na "desorganização" do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e na assimétrica distribuição, tanto por especialidades como em termos geográficos, dos médicos que existem.

foto FERNANDO TIMÓTEO/GLOBAL IMAGENS
Faltam 300 médicos nos centros de saúde
Bastonário critica salários de 1100 euros

A situação mais grave é a que se vive nos cuidados de saúde primários, onde faltam cerca de 300 médicos de família a meio milhão de portugueses. Nos hospitais, o bastonário admite que "provavelmente, há médicos a mais". A razão é simples: os jovens médicos não querem seguir a especialidade de Medicina Geral e Familiar porque, nos centros de saúde, vão receber, por 35 horas de trabalho, 1100 euros mensais, "um salário ao nível de um auxiliar de acção médica". Já nos hospitais, podem negociar, nos contratos individuais de trabalho, salários muito mais atractivos.

Para colmatar a carência de clínicos, o Estado tem optado por uma solução que, na opinião de José Manuel Silva, prejudica os doentes: contratar "médicos cubanos e colombianos, sem especialização em Medicina Geral e Familiar". "O que é preciso fazer é dar condições dignas para os jovens médicos se fixarem nos centros de saúde", defende.

A obrigatoriedade de os especialistas permanecerem no SNS durante um período igual ao internato, sob pena de terem de indemnizar o Estado, é também criticada pelo recém-empossado presidente da Ordem dos Médicos. Porque só tem um objectivo: reduzir os salários. "O Estado quer forçar os médicos a trabalhar compulsivamente com vencimentos mínimos", sublinha.

Para avaliar as reais necessidades de médicos em cada especialidade e por região e determinar quantas vagas devem abrir para os internatos complementares, a Ordem vai promover um estudo de demografia médica.

Quanto ao numerus clausus para Medicina, considera que é exagerado. Socorrendo-se de um estudo que, em 2002, avaliava as vagas necessárias em 1175, diz que, todos os anos, entram nos cursos de Medicina 700 alunos a mais.

Helena Norte

Link: Faltam 300 médicos nos centros de saúde - JN

04 fevereiro 2011

País - Rádios portuguesas combinaram um sorriso - RTP Noticias, Vídeo

«Isto é hoje. Mas se lhe dissesse que era ontem, dava no mesmo. Não há diferença. Melhor dizendo, a diferença está lá, só que já não a percebemos. Tal como quando nos olhamos ao espelho, sem que se note a erosão do dia que passou. Passou, ponto. Continuamos à procura do reflexo da nossa imagem, mas só porque disso se fez um sacrifício que há muito sacrificou a dose de prazer e já só nos permite ser funcionais, obedientes com uma rotina mecânica. Hoje, ontem, amanhã. Isto é você. Mas se lhe dissesse que era eu, era quase a mesma coisa. Estamos todos aqui, presos no embalo de um ritmo que parece mais feito de pára do que de arranca. Por isso, quando me convidaram a sorrir para o vizinho do lado, pensei que era preciso ter lata! Sorrir de quê? Para quem? E enquanto me interrogo, o vulto anónimo que me fez companhia todos os dias na fila ao lado sorriu. Desvio o olhar e ganho coragem para confirmar que aquele sorriso pedido era mesmo para mim. É estranho, mas dou por mim a sorrir de volta. E continuo sem saber de quê e para quem. Sorri. Não sei se amarelo, envergonhado, alegre, trocista ou até demente. Sorrir soube-me bem. Foi quase "Porreiro, pá!". Foi um sorriso fácil. Não é força de expressão, é uma expressão de força. Este é o seu país. Mas se me dissessem que era o meu, eu não iria acreditar.»
Alexandre Santos


Há já uns tempos que pensava quando iriam as rádios portuguesas tentar uma experiência semelhante à brasileira.
Hoje também em Portugal a radio faz sorrir os automobilistas.
Logo no dia em que não levei o carro...

Link: País - Rádios portuguesas combinaram um sorriso - RTP Noticias, Vídeo

29 janeiro 2011

Coragem para mudar

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


Fernando Pessoa

28 janeiro 2011

Boda

A palavra boda vem do latim vota (plural de votum -promessa) referida ao fato de fazer os votos matrimoniais.

Eu sei que já não se usa estar casado durante muito tempo... enfim, deixou de ser moda! Tudo é efémero, e assim acontece agora com o casamento.
Mas eu venho de uma família tradicional. Os Pais já comemoraram as bodas de prata, os Avós as de ouro e os tios vão seguindo a mesma linha.
Não é o papel em si que interessa nem tão pouco o anel. Mesmo. Não sei explicar: é o significado da coisa...


Mas o fundo da questão actualmente é anterior ao casamento em si: "Não é necessário casar." Não, de facto não é, mas parece que ultimamente o que é mais necessário é não casar...!
Não digo que duas pessoas não vivam juntas antes mesmo de dar esse passo ou que, quando o fizerem, o façam pelo civil ou pela igreja, qualquer uma que seja.
O que eu não entendo é a moda do não querer casar, mas querer ter as vantagens de se estar casado. Ou por outra: vendo o casamento da forma mais fria e pouco romântica possível, não será mais que a celebração de um CONTRATO envolvendo vantagens e desvantagens conhecidas de ambas as partes e com as quais concordam e assumem a partir do momento em que se comprometem. Assim sendo, a partir do momento em que alguém (ou um par de alguéns) decide não celebrar o tal contrato, assume para si que não terá as desvantagens inerentes mas também não terá as vantagens! Isto é: eu quero ter o meu carro (perdoem-me a comparação pateta), mas não o quero comprar; quero investir na bolsa e ter o lucro mas não assumo as perdas se as houver. Estão a ver?!


É que, no fundo, nada tem apenas vantagens.


Ainda assim, aqui fica a lista das celebrações, para referência futura:

1 ano - Bodas de Algodão
2 anos - Bodas de Papel
3 anos - Bodas de Trigo ou Couro
4 anos - Bodas de Flores e Frutas ou Cera
5 anos - Bodas de Madeira ou Ferro
6 anos - Bodas de Perfume ou Açúcar
7 anos - Bodas de Latão ou Lã
8 anos - Bodas de Papoula ou Barro
9 anos - Bodas de Cerâmica ou Vime
10 anos - Bodas de Estanho ou Zinco

11 anos - Bodas de Aço
12 anos - Bodas de Seda ou Ônix
13 anos - Bodas de Linho ou Renda
14 anos - Bodas de Marfim
15 anos - Bodas de Cristal
16 anos - Bodas de Safira ou Turmalina
17 anos - Bodas de Rosa
18 anos - Bodas de Turquesa
19 anos - Bodas de Cretone ou Água Marinha
20 anos - Bodas de Porcelana

21 anos - Bodas de Zircão
22 anos - Bodas de Louça
23 anos - Bodas de Palha
24 anos - Bodas de Opala
25 anos - Bodas de Prata
26 anos - Bodas de Alexandrita
27 anos - Bodas de Crisopázio
28 anos - Bodas de Hematita
29 anos - Bodas de Erva
30 anos - Bodas de Pérola

31 anos - Bodas de Nácar
32 anos - Bodas de Pinho
33 anos - Bodas de Crizo
34 anos - Bodas de Oliveira
35 anos - Bodas de Coral
36 anos - Bodas de Cedro
37 anos - Bodas de Aventurina
38 anos - Bodas de Carvalho
39 anos - Bodas de Mármore
40 anos - Bodas de Esmeralda

41 anos - Bodas de Seda
42 anos - Bodas de Prata Dourada
43 anos - Bodas de Azeriche
44 anos - Bodas de Carbonato
45 anos - Bodas de Rubi
46 anos - Bodas de Alabastro
47 anos - Bodas de Jaspe
48 anos - Bodas de Granito
49 anos - Bodas de Heliotrópio
50 anos - Bodas de Ouro

51 anos - Bodas de Bronze
52 anos - Bodas de Argila
53 anos - Bodas de Antimônio
54 anos - Bodas de Níquel
55 anos - Bodas de Ametista
56 anos - Bodas de Malaquita
57 anos - Bodas de Lápis Lazuli
58 anos - Bodas de Vidro
59 anos - Bodas de Cereja
60 anos - Bodas de Diamante ou Jade

61 anos - Bodas de Cobre
62 anos - Bodas de Telurita
63 anos - Bodas de Sândalo
64 anos - Bodas de Fabulita
65 anos - Bodas de Platina
66 anos - Bodas de Ébano
67 anos - Bodas de Neve
68 anos - Bodas de Chumbo
69 anos - Bodas de Mercúrio
70 anos - Bodas de Vinho

71 anos - Bodas de Zinco
72 anos - Bodas de Aveia
73 anos - Bodas de Mangerona
74 anos - Bodas de Macieira
75 anos - Bodas de Brilhante ou Alabastre
76 anos - Bodas de Cipreste
77 anos - Bodas de Alfazema
78 anos - Bodas de Benjoim
79 anos - Bodas de Café
80 anos - Bodas de Nogueira ou Carvalho

81 anos - Bodas de Cacau
82 anos - Bodas de Cravo
83 anos - Bodas de Begónia
84 anos - Bodas de Crisântemo
85 anos - Bodas de Girassol
86 anos - Bodas de Hortênsia
87 anos - Bodas de Nogueira
88 anos - Bodas de Pêra
89 anos - Bodas de Figueira
90 anos - Bodas de Álamo

91 anos - Bodas de Pinheiro
92 anos - Bodas de Salgueiro
93 anos - Bodas de Imbuia
94 anos - Bodas de Palmeira
95 anos - Bodas de Sândalo
96 anos - Bodas de Oliveira
97 anos - Bodas de Abeto
98 anos - Bodas de Pinheiro
99 anos - Bodas de Salgueiro
100 anos - Bodas de Jequitibá ou Cânhamo



18 janeiro 2011

Avô A.

Faria hoje 107 anos - o meu Avô A.

Não sei muito sobre ele, é certo. Contam os Tios que seria reconhecidamente um excelente orador. Era obviamente um homem das Artes Literárias, com obra publicada.
Orgulhoso da sua terra, foi "um dos ilustres filhos" de Outeiro de Gatos, Meda, distrito da Guarda.

Defensor inveterado da Monarquia, amigo da família dos Duques de Bragança, teria certamente dado um nó na garganta ao ver a sua filha mais nova casar com o neto de um Homem da Revolução, personagem de 1910.

Foi Director do Distrito Escolar da Guarda nos anos 60 e dedicou-se ao ensino durante toda a vida.

Rigoroso, austero, rígido.
Ainda assim, gostaria de tê-lo conhecido. Tantos netos ter-lhe-iam dado a volta.
Isso sim.

08 janeiro 2011

las meninas, 3

eu fico à esquerda no computador.
durante a tarde vou escutando discos.
a teresa foi buscar lápis de cor
e faz na folha grandes asteriscos:

desenha a jarra e a flor e outra flor;
mas como a vassourinha trás dos ciscos
a joana desaustina em derredor:
vai-se à obra da irmã e enche-a de riscos.

no espelho a luz entre água e sombras voga
e em espaços me detenho,
com a porta a rasgar-se mais ao fundo.

e o cão, e os sete anões, assim se joga,
do olhar à flor, do lápis ao desenho,
o jogo das meninas com o mundo.

Vasco Graça Moura

imagem: Diego Velásquez, 1565

05 janeiro 2011

Vanity fair


Não me interessa a razão - todas as mulheres são vaidosas.
Um bocadinho, pelo menos.
E se não são, deviam ser!

"A girl should be two things: classy and fabulous."
Coco Chanel

Diz um espécime masculino das minhas relações que pintar as unhas de vermelho é piroso. Não quero saber... o rapaz diz que quer casar de calções, sabe lá ele do que fala!
Daqui a 6 meses tenho o "meu" baile de finalistas.
Vão ver: Saltos, Perfume, Vestido, Verniz, Maquilhagem, Cabeleireiro, Anéis, Pulseiras, Colares, Brincos. Tudo a que tiver direito.

Não estou a ser machista/feminista/o que queiram ou a diminuir a classe de forma alguma.
O que é ser vaidosa senão uma mulher sentir-se bem com o que é, como é? com quem é?? Porque é que os homens não hão-de ser vaidosos também? São-no!
É pecado... por mim tudo bem, seja!

Posso parecer materialista. Quem me conhece sabe que não o sou.
Ainda assim, não sei se concordam comigo, mas há dias em que um brilhozinho nos olhos por qualquer que seja a razão material... vale tudo.

"Some people think luxury is the opposite of poverty.
It is not.
It is the opposite of vulgarity."
Coco Chanel

01 janeiro 2011

Bom Ano



When you try your best, but you don't succeed
When you get what you want, but not what you need
When you feel so tired, but you can't sleep
Stuck in reverse

And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone, but it goes to waste
Could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Tears stream down on your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down on your face
And on your face I...

Tears stream down on your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down on your face
And on your face I...

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Fix you, Coldplay

picture source: eatshit-

13 novembro 2010

Adeus ao "Senhor do Adeus"

Mais de 200 pessoas prestaram homenagem ao 'Senhor do Adeus'

por ELISABETE SILVA


No Saldanha, junto ao semáforo onde João Manuel Serra parava para acenar e sorrir, uma pequena multidão repetiu o gesto do adeus e até se pediu que fosse feita uma estátua


Durante uma década foi um adeus solitário que marcou o Saldanha, em Lisboa. Mas o que parecia ser um aceno simples e que passava despercebido afinal era mesmo uma das imagens da capital e "tocava" a maioria que por ali passava. Mais de 200 pessoas mostraram isso mesmo ao aparecer quinta-feira à noite junto ao semáforo em que o "Senhor do Adeus" cumprimentava quem passava. Repetiram durante duas horas o aceno que a morte de João Manuel Serra (aos 79 anos) fez desaparecer.
(...)
Para muitos lisboetas, a capital está mais pobre, e no Facebook podia ler-se que "perdeu um pouco da sua humanidade".

30 setembro 2010

Dia #45 das Férias: Marrakech - Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Quase no final de um Verão em cheio, fui passar uns dias a Marrakech. Honestamente, não sabia bem o que esperar... cá por casa o espírito manteve-se em "ainda não mudaram o destino da viagem?" até à véspera da partida; por outras bandas ouvia "iii, que sorte, quem me dera!" desde o dia em que marcámos o voo. Opiniões não se discutem.


1.º Dia - Madrid
Almoço no Mac – Museu Reina Sofia- Monumento às vítimas do 11/Mar na estação de Atocha. Depois, Noche en blanco: Museus, cafés, restaurantes abertos até às tantas (jantamos no Mercado de San Miguel - sim, a malta trata-se bem!); avenidas cortadas ao trânsito; milhares e milhares de pessoas por todo o lado (e um hospital de campanha da SAMUR no meio da cidade, just in case); concertos para todos os gostos e espectáculos de fogo na rua; bolas de sabão gigantes... Resumindo, a ver se descubro outra cidade europeia para passar mais uma "Noite em Branco"...






2.º Dia - "Marrakech, o primeiro impacto"
Já dizia Fernando Pessoa: "primeiro estranha-se, depois entranha-se". E tinha razão em inúmeras maneiras de que nem ele se apercebeu...

(1). Primeiro estranha-se, SIM! Tudo é diferente de cá! Logo que saímos do aeroporto no mini-bus de transfer para o hotel, percebemos que o trânsito é o caos: ao pé de um marroquino, um italiano é um menino... Andámos, andámos, andámos, começámos a contornar a muralha da Medina até que a paisagem se começa lentamente a assemelhar ao Iraque-dos-telejornais. Neste momento o B. ganha coragem e diz exactamente o que todos pensávamos "Para aqui é que eu não venho a pé de certeza!", ao que o nosso motorista responde no seu francês-marrocain: "Chegámos!".

O sangue esvaiu-se das veias e com um sorriso amarelo lá tirámos as malas da bagageira. "Sabem ir sozinhos até ao Riad?"

"NÃO!!"

Fomos em silêncio atrás do pouco amigável senhor, com as malas bem encaixadas debaixo do braço, como se nos protegessem de alguma coisa - ou nós a elas. E assim caminhávamos, a olhar para todos os lados à espera da rajada de metralhadora que devia estar mesmo para acontecer!...

Chegámos ao Riad Dar Tuscia.





"Vá lá, pode ser que isto não corra assim tão mal." Ainda assim, a mera hipótese de sair do Riad dava-me a volta ao estômago...

"Teresa, o que se passa?"

"Quero ir para casa!"

Mas... Estávamos num país novo, num continente diferente - são só três dias, 'bora lá!

Pensámos em perguntar, já agora, qual era o número de emergência. "Número de emergência? Se acontecer alguma coisa liguem para mim, sou o vosso número de emergência!"

(Oh não!) "Pronto... então vamos... ... ..."

"Vão agora visitar a cidade? Boa sorte!"

"Boa sorte?" (OH NÃÃOO!)

Ok, respirar fundo e aqui vai disto! Metemo-nos ao caminho. Mapa em punho, carteiras sempre debaixo de olho - é impossível não se parecer turista por aquelas bandas (verdade seja dita, houve quem pensasse que íamos 4 turistas com o J., o marrocain... hehe).

Ao fim de alguns minutos a andar entrámos, sem saber bem como, num Souq.







A confusão perfeitamente organizada daqueles "centros comerciais" é qualquer coisa de fantástico - pena estar ainda demasiadamente apreensiva para conseguir aproveitar. As cores e os cheiros (vá, nem sempre agradáveis, é preciso dizer) misturam-se com os sons dos vendedores que levam o negócio como um jogo a que não podemos escapar. Pedem-nos X dirhams, oferecemos 1/3 e vamos subindo até à metade. No máximo. Pensamos invariavelmente que fizémos um grande negócio. Mas não. Eles sim, nós não.

Era hora de almoçar, a barriga dava horas e não fazíamos a mais pálida ideia de onde ir.

"Trinta? Não dou trinta por isto!" - São portugueses!!

Era o seu último dia; “onde almoçar?, perguntem ali ao Henrique.”

Recomendou bem: Café des Épices.

Durante o resto da tarde andámos a ver as vistas. Entrámos pela primeira vez na praça Jamaa el Fna, que, ainda durante o dia, mal deixa prever o rebuliço da noite! Seguimos para sudoeste e fomos espreitar os jardins e a mesquita de Koutoubia. O seu minarete de apenas 69m vê-se de toda a cidade e que foi usado como modelo para La Giralda, em Sevilha e para a Torre Hassan, em Rabat.




Acabámos por comprar ali mesmo bilhetes para o hop on - hop off da zona, que nos deu uma boa perspectiva do que havia para visitar nos dias seguintes.

Jantámos no centro e voltámos para o Riad ainda cedo.


(2). Depois entranha-se, SIM! Ao chegar ao Riad foi tudo tomar banho outra vez… era o calor, o pó, o fumo, os cheiros, tudo entranhado até à medula, camadas e camadas de… isso!

Ao fim do primeiro dia em Marrocos, parecia que tinha passado uma semana. As emoções ao rubro do primeiro impacto foram esmorecendo. Pensando bem, somos mais claros, aparentemente mais saudáveis, talvez mesmo mais ricos, por outro lado estamos obviamente menos ambientados, somos talvez menos sujos, mas também menos vestidos. Ainda assim, e apesar de nunca passarmos despercebidos, ninguém diz nada, ninguém se aproxima. Vivem o espírito do "tu ajudas-me a puxar a minha mota, eu mostro-te os meus camaleões bebés".

É uma convivência pacífica. Fico mais descansada.




3.º Dia
O pequeno almoço não era diversificado mas superou largamente as expectativas (tinha levado uma caixa de bolachas, não fosse a coisa dar pr'o torto...). Café, leite, sumo de laranja natural; croissants e pão; manteiga e doce. How nice?!

Saímos do Riad já mais confiantes e preparados para aproveitar o passeio.

Fomos em direcção à zona nova da cidade (ruas iguais às de uma típica cidade europeia, apenas com mais trânsito, mais turbantes e burcas e consideravelmente mais sujas) onde, à espera do autocarro, o J. fez a melhor compra da viagem: um horloge-automatique-originel, preto, por 1/6 do que o marrocain lhe pediu inicialmente! C'est un berbère, celui là!

Apanhámos o hop on - hop off em direcção aos jardins de Menara. As fotografias do guia da American Express prometiam um jardim fulgurante, um palácio grandioso e um lago dourado. Somos testemunhas do poder do photoshop... O jardim era um amontoado de oliveiras raquíticas, o palácio era uma moradia velha e o lago, esse sim digno de ser visto, era um enorme lamaçal com peixes de meio metro e crianças a tomar banho lá dentro... Bonito!





Hop on - hop off com eles outra vez, agora para o centro da cidade.

Almoço lá pró meio da Medina: suminho de laranja marroquina – um pitéu! Comemos ainda umas sandwiches de qualquer coisa que havia de ser cordeiro mas talvez não fosse. Era bom – ou a fome era negra – portanto não interessa!




De tarde, Paláis Bahia – ora aí está uma coisa engraçada. Antes de mais devo dizer que se trata de um palácio de um só piso. Não porque não houvesse dinheiro ou conhecimento e meios para construir mais, mas simplesmente porque Sua Excelência o Rei era pró gorducho e não ‘tava para andar para cima e para baixo …

Revelou-se, este palácio, um bom spot para sessões fotográficas. Vamos lá ver: quem vê os mosaicos das primeiras salas já os viu a todos e na verdade aquilo é completamente deserto (para onde o Rei vai, vai a mobília toda atrás)! Mas os contrastes de luz, as portas e os gradeamentos e os jardins interiores fazem certamente a delícia de qualquer fotógrafo (ou “aspirante a”, com um maquinão novo! hehe).









À hora de jantar: restaurante com varanda sobre a Jamaa el Fna. Tagines e pastilla, para experimentar. A primeira era uma espécie de carne estufada com batatas e afins dentro de uma “tenda” de barro. Bom. O segundo levava já recomendado de Lisboa: era como se fosse o interior de um crepe, mas dentro de uma fartura. Muito bom! Havia de o ter comido à mão mas não me explicaram essa parte antes de ir…!

Antes de recolher ainda houve tempo para regatear qualquer coisinha nos souks.

De volta ao Riad que amanhã há mais.






4.º Dia
Saímos de manhã em busca do bairro judeu. É capaz de ser um sítio mesmo giro, mas nunca o encontrámos... Em vez disso andámos, andámos, andámos por ruas e ruelas, passámos pelo cemitério judeu, mas o bairro em si, nicles!

Por volta das 2 da tarde e a desfalecer debaixo de 42ºC à sombra achámos por bem ir almoçar: Pizzas – não pelas pizzas em si mas porque tinha ar condicionado e esguichos de água para arrefecer. Antes da comidinha despachámos uma garrafinha de litro e meio de água cada um… só por causa das coisas! E ainda foram mais umas para o caminho.

Siga para a próxima visita: os Túmulos Saadian. Situam-se em pleno distrito Kasbah Real de Marrakech, a sul da Jamaa el Fna e foram selados no século XVI. A entrada faz-se, agora, por uma estreita passagem ao lado da mesquita. Estão ali sepultadas mais de 150 pessoas, entre as quais o Sultão Ahmed El Mansour e a sua família, bem como marroquinos em geral (até servos) que tenham sido reconhecidas pela família real pelos serviços prestados. O estilo andaluz dos mausoléus, cobertos de azulejos, tem um impacto notável. Mais interessante acaba por ser a forma como se fazem distinguir hierarquicamente, mesmo depois de mortos: pequenas estruturas de mármore, sobre o comprido, ao longo de alguns túmulos, deixam transparecer, pelo requintado trabalho manual, o nível social de quem guardam.

Uma pequena pausa para descansar à sombra dos muros veio mesmo a calhar e resultou em mais fotografias bem giras!




Da parte da tarde seguimos para os Jardins de Majorelle. Ao que parece, Jacques Majorelle era um pintor francês do século passado que se estabeleceu em Marrakech em 1919 onde comprou este jardim na parte nova da cidade. Faleceu em 1962 e Pierre Bergé e o famosíssimo Yves Saint Laurent acabam por comprá-lo em 1980, mantendo-o aberto ao público. Os azuis e os jogos de luz envolvem os verdes da vasta colecção de plantas dos 5 continentes (até encontrámos madeirenses!!), contrastando com os elementos arquitectónicos aliados à estética tradicional marroquina. No interior, o Museu de Arte Islâmica apresenta a colecção de Bergé e Saint Laurent, mas estava em remodelações – fica para outra altura. Cometi o crime de usar uns calções Armani no dia em que visitámos o monumento de homenagem a Yves Saint Laurent (ficou o senhor às voltas no túmulo, concerteza)… Em relação ao monumento propriamente dito, digamos apenas que a escultura em si representava fielmente a sua tendência um tanto ou quanto… vá... exótica!







Regressámos de coche para o centro e para despedida voltámos a jantar na Jamaa el Fna. Comemos cordeiro (not…!) com acompanhamentos desconhecidos e uma imitação das tagines do dia anterior (deviamos ter deixado o melhor restaurante para o fim!).

Gastámos os últimos dirhams nos souks em presentes para trazer e estávamos de volta ao riad.




5.º Dia
De malas prontas e pequeno almoço tomado estivemos quase uma hora à espera que o motorista do transfer para o aeroporto nos viesse buscar, o que acabou por não acontecer. Pegámos nos pezinhos e fomos nós mesmos em busca de um petit-taxi, de malas a rolar alegremente pelo chão da rua, como se aquilo já fosse tudo nosso. Nem negociámos o preço (o taxista ficou meio baralhado), mas o mais engraçado foi quando estávamos já a arfar pelo calor de 6 pessoas dentro de um carro fechado debaixo de 40ºC, quando o senhor diz em franciu "il fait chau? atão tomem lá a manivela de abrir as janelas."!!

O resto do dia foi inteiramente passado em trânsito. Ou em transe...

Chegámos por volta das 20h e nunca a frase "Cheira bem, cheira a Lisboa fez tanto sentido!"


06 setembro 2010

O Algarve

Agora que acabaram estas férias no Algarve, deixem-me tecer um ou dois comentários sobre o que foi o meu Verão.

Antes de mais: era Verão. Tenho a certeza porque fui lá fora e vi.
Primeiro porque à noite estavam 30 graus à sombra (da Lua?!) e depois porque vi a minha praia no Algarve pejada de guarda-sóis e 'tugas branquelas desesperadamente em busca dos UV. (Quero dizer... "vi a praia" é um bocado mentira, mas olhei lá para o sítio, porque já para lá vou vai para vinte e tal anos e sei muito bem onde ela fica).

Mas foi bom. Tudo bem que a questão dos incêndios por um lado e da Selecção Nacional a arder pelo outro eram dispensáveis. Ainda assim, pode dizer-se que foi um Verão, Verão! Calor, solzão, água quentinha, sardinhadas, praia até às 8 e tal, marisco, nights out, boa companhia... não faltou nada.

Este ano mudei de praia. Ou melhor, cheguei-me mais lá para a frente, que mudar de praia não está nos meus planos. Acabaram com os nossos toldos à frente de casa - a malta foi em busca de uns toldos que nos quisessem.
Desta vez não foi o 14, mas como já era o 14 há mais de 50 anos, foi o "23-não-14!".
Apesar de ser um bocadinho mais longe e a 3ª idade já pensar duas vezes antes de se pôr a caminho, foi uma boa escolha: o grupo mudou-se em peso e há agora muito mais espaço. Até espreguiçadeiras temos!
(Eu até vos dizia para onde vou agora, mas pró ano 'tá tudo lá caído e isso é que não pode ser!)

Mas a minha versão de praia no Algarve é a versão soft... porque não sou realmente turista. Conheço a praia, os caminhos, os sítios, as pessoas. Ali só "enfia o barrete" quem parte à descoberta. E partir à descoberta no Algarve em pleno Agosto é um desafio (potencialmente) desastroso...

Veraneante de Agosto que se preze põe o guarda-Sol às costas, agarra no puto e no tacho do arroz de tomate, dá dois berros à mulher que não se esqueça de trazer o tupperware dos carapaus fritos e ala que se faz tarde! Chega à praia, encontra outras tantas famílias similares e abanca onde lhe dá mais jeito: afasta umas toalhas com o pé como quem não quer a coisa porque aqui fico eu e mai' nada.

E pronto, passa ali o dia a botar o bronzeador na "dama", a gritar ao puto que não "amande água às pessoas, tás parvo ou quê?! Não tarda nada tás a levar, óvistes?" e assim se faz um g'anda dia de praia.

E ao jantar, meus senhores? Querem emoção e testar os vossos limites? Esqueçam os saltos de pára-quedas e vão mas é jantar ao Algarve em Agosto.
"Good evening!"
"Atão? Good evening? Mas nós somos de cá! Boa Noite!"
"Ah são portugueses?! Atão deixa 'tar que já alombam aí com duas horas à porta à espera. Um momento, por favor"
E daí em diante, é sempre a melhorar até onde a vossa imaginação vos levar.

Portanto, quem conhece vai sempre aos mesmos, porque nos que não conhece não tem hipótese...

Verdade seja dita, o Algarve está a recuperar... não apanhei grande trânsito para lá, não apanhei grande trânsito para cá, não congelei os ossos a entrar na água, não paguei "gato por lebre" em lado nenhum, não vi nenhum Jet7 mais bronzeado que um africano bronzeado, enfim... um dia destes ainda convenço o meu namorado que aquilo até é bom!